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segunda-feira, 18 de julho de 2011

“A Mente Liberta” - Fundindo o Zen com as Artes Marciais

"A Mente Liberta" (do inglês "The Unfettered Mind") é um livro que reúne três textos escritos pelo monje zen Takuan Soho (1573-1645).

Aqueles que se interessam por aspectos não-físicos das artes marciais encontrarão neste livro um prato cheio. Takuan aborda os lados espiritual, mental e psicológico dos conflitos armados. Para os praticantes de Systema, é muito interessante ver estes objetos de estudo com uma roupagem zen-budista. O autor deixa também um retrato da moralidade da época, no que tange ao relacionamento entre as castas dos samurais e dos daimyos (senhores de terra), explorando o contexto para dar conselhos e expor ensinamentos.

A abordagem de Takuan Soho é holística e por isso proporciona ao leitor um breve mergulho na cultura japonesa da idade média, quando os conflitos territoriais eram frequentes e os samurais exerciam um papel ativo na sociedade. Segue abaixo um trecho da introdução da tradução para o português:

"Diz-se que Takuan buscou infundir o espírito do Zen em todos os aspectos da vida que lhe chamaram a atenção, como a caligrafia, a poesia, a jardinagem e as artes em geral. A arte da espada não escapou ao seu olhar. Vivendo os últimos dias da violenta guerra feudal que culminou na Batalha de Sekigahara, em 1.600, Takuan estava familiarizado, não somente com a paz e a elevação que acompanhavam o artista e o mestre do chá, mas também com os conflitos – a vitória e a derrota – que marcam a vida dos guerreiros e generais. (...) 
No conjunto, os três textos são dirigidos à casta dos samurais, e os três buscam unir o espírito do Zen com o espírito da espada. Os conselhos dados combinam os aspectos práticos, técnicos e filosóficos do conflito. (...)
Os três textos fazem com que o indivíduo se volte para o conhecimento de si mesmo, e, logo, à arte de viver. A esgrima como mera expressão de uma técnica e o Zen meditativo já existiam havia tempo no Japão; o Zen se estabelecera firmemente no final do século XII. Com Takuan as duas coisas chegaram a uma verdadeira união, e seus escritos e opiniões sobre a espada tiveram uma influência extraordinária sobre os rumos que a arte japonesa da esgrima tomou daquela época até hoje. Essa arte ainda é praticada com fervor, e reflete uma parcela significativa da visão de mundo japonesa. Firmando a união do Zen e da espada, a obra de Takuan influenciou os escritos dos grandes mestres daquela época e deu origem a um grande número de textos que continuam a ser lidos e aplicados, como o Heiho Kadensho de Yagyu Munenori e o Gorin no Sho [O Livro dos 5 Anéis] de Miyamoto Musashi. Esses homens tinham estilos diferentes, mas suas conclusões reúnem intuições e entendimentos de nível elevadíssimo, quer sejam expressos como a "liberdade e espontaneidade" de Musashi, a "mente comum que não conhece regras" de Munenori ou a "mente liberta" de Takuan.  
Para Takuan, a culminação do Caminho não eram a morte e a destruição, mas a Iluminação e a salvação. O conflito, visto segundo uma mente "reta", não somente dá vida, como a dá em abundância."


Referências:
  • Takuan Soho. The Unfettered Mind. Writings of the Zen Master to the Sword Master. Translated by William Scott Wilson. 
  • Takuan Soho. A Mente Liberta. Escritos de um Mestre Zen a um Mestre da Espada.

domingo, 17 de julho de 2011

Respiração, relaxamento, movimentação e postura

Os fundamentos que dão corpo ao Systema e que se extrapolam para a vida do praticante


Respiração, relaxamento, movimentação e postura são os quatro fundamentos do Systema: eles se complementam e devem ser simultâneos. Com estas quatro palavras, algumas coisas ficam subentendidas e são verdadeiras:

- não há alusão ao que culturalmente esperamos do combate: coragem, força muscular, persistência etc;
- os fundamentos remetem à expressão natural do corpo humano; e
- as orientações são pouco restritivas e podem valer para situações do dia a dia.

Apesar de aparentemente irrelevantes, estes quatro princípios explicam a eficiência do Systema pelos dois lados: aumento de resultados e diminuição dos esforços. Esta abordagem guarda fortes semelhanças com a filosofia taoísta exposta na obra Tao Te Ching de Lao Tsé. Tradicionalmente aprendemos o oposto: que para conquistar mais resultados é obrigatório se esforçar mais, e que o esforço por si só é meritoso - mesmo quando não acompanhado de resultados.

A vontade de resistir e impor uma derrota sobre o outro está atrelada a uma carga emocional de apego à vitória, e resulta que o adversário encontra um "espelho": alguém com quem consegue brigar e medir forças. Esta problemática é bastante citada pelo budismo. No Systema, boa parte dos movimentos se deve ao "deixar acontecer", aproveitando as próprias situações geradas pelo agressor e sabotando a sua 
vontade de brigar. 


(Clique na imagem para ampliá-la)

A atenção à respiração é um pré-requisito para superarmos o medo e o pânico. Sem a respiração, não conseguimos raciocinar nem relaxar, e o problema toma proporções maiores enquanto nos debatemos em desespero. Esta temática é muito explorada pelas escolas de yoga e, por incrível que pareça, tem relevantes aplicações marciais. Note também que a respiração e o relaxamento, para se tornarem constantes, estão atrelados a um condicionamento psicológico. Este estado mental é propício à liberdade, ao improviso e à criatividade, necessários para responder com desembaraço e rapidez às agressões reais, que sempre são distintas e não seguem roteiros.

O iniciante que começa a incorporar estes quatro fundamentos logo percebe que eles são surpreendentemente funcionais, de sorte que é difícil evitar que eles se extrapolem para a vida cotidiana do trabalho e da família. Nos treinos, o iniciante questiona a validez da força muscular e da rigidez para lidar com a violência, e acaba percebendo que o relaxamento, em contrapartida, é mais efetivo. Na vida, acabamos questionando diversos aspectos, como a efetividade das decisões unilaterais e a busca aflita de objetivos rígidos. Nos treinos, estamos sempre a observar e a aceitar situações novas, e é importante que esta flexibilidade passe a ser aplicada também aos problemas cotidianos. Esta atitude de relaxamento tem tudo a ver com expressões do tipo "dar uma volta para respirar um ar fresco", ou "fulano tem cabeça fresca": é exatamente este o espírito que buscamos desenvolver, sem abrir mão da responsabilidade e da segurança.

Nos treinos, as ações são estudadas e jamais executadas a esmo. Esta atitude crítica incita o praticante a analisar a sua conduta de vida e a questionar os seus porquês e os seus efeitos sobre terceiros. Não há como ter absoluta certeza de algo, mas sempre podemos aumentar a compreensão. Por consequência, a tendência é reavaliar as maneiras como atingimos nossos objetivos, bem como a validez destes objetivos, seja no aspecto pessoal, social, profissional ou afetivo.