Mostrando postagens com marcador história. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Bartitsu: a arte eclética de Barton-Wright (parte II)

A contribuição de Barton-Wright para a autodefesa e as artes marciais

Durante a década de 1880, a família de Barton-Wright voltou à Inglaterra e ele concluiu seus estudos na França e na Alemanha. Como engenheiro civil, trabalhou para companhias ferroviárias e de mineração em diversas localidades do mundo, como Espanha, Portugal, Estabelecimentos dos Estreitos (colônias britânicas no sudeste asiático, atuais Malásia e Cingapura) e Japão. [3]

Barton-Wright ajudou a introduzir o Jujutsu e o Judo na Inglaterra, tendo para isso que atrair dois lutadores experientes: Yukio Tani e Sadakazu Uyenishi, enviados do Japão. [7]

Antes mesmo de ir ao Japão, Barton sempre teve interesse nas aplicações de autodefesa ao aprender os estilos de luta. Percebeu que o jujutsu e o judo eram eficientes para situações de agarrões (grappling), de curta distância. Assim, ao mesclar diversos estilos, estava suprindo as deficiências de cada estilo particular, de sorte que a vítima de uma agressão real pudesse se defender bem independentemente da distância de ataque.

O uso de bengalas e guarda-chuvas como armas de autodefesa se deve ao aprendizado de Barton com o francês Pierre Vigny [5], também professor de savate. Em seus estudos, Barton também incluiu o uso do chapéu e do casaco [6] como formas de autodefesa - este último tendo grande utilidade na defesa contra facas.

Em Londres, 1899, Barton fundou seu espaço, denominado Bartitsu Academy of Arms and Physical Culture - apelidado de Bartitsu Club. Talvez tenha sido o primeiro exemplo de academia de artes marciais com cunho comercial. Mary Nugest, uma jornalista da época, assim descreveu o local:

“... a huge subterranean hall, all glittering, white-tiled walls, and electric light, with 'champions' prowling around it like tigers” [14]

A rua em que se localizava o Bartitsu Club

Era um clube eclético, em que lutadores de diferentes modalidades costumavam medir forças e disputar campeonatos de artes marciais mistas. Várias modalidades eram ensinadas: Pierre Vigny, vindo da Suíça, oferecia aulas de Savate e La Canne (walking-stick fighting); Yukio Tani e Sadakazu Uyenishi, enviados do Japão, ensinavam Jujutsu; Egerton Castle e o capitão Alfred Hutton ensinavam o uso da espada (two-handed sword). Entre os membros do clube estavam militares de alta patente, atletas, atores e aristocratas. Curiosamente, também frequentou o clube Sir Cosmo Duff Gordon, esgrimista olímpico e sobrevivente do Titanic. [9]

Em 1901, o Bartitsu incorporou exercícios de respiração sob a instrução de Mrs. Emil Behnke [11]. Neste mesmo clube, Bart destinava um salão para terapias alternativas, que se por um lado eram inovadoras, por outro eram bastante controversas (este assunto será retomado mais adiante).

Nas demonstrações de autodefesa, Barton surpreendia o público empregando as técnicas orientais que os ingleses desconheciam. Mesmo em desvantagem de peso e altura, ele conseguia se proteger muito bem contra múltiplos atacantes. Porém, quando desafiado por lutadores experientes, Barton escolhia um dos japoneses para ganhar a luta e demonstrar a superioridade do Bartitsu. [7] Em português claro, podemos dizer que Barton era um fanfarrão - afinal, se ele dependia de vitórias para atestar a validade de sua criação, também tinha muito medo de perder. O elemento surpresa, isto é, as técnicas de Jujutsu então desconhecidas, parece ter sido o responsável pela eficiência do Bartitsu contra os outros estilos. Não há evidências de que Barton tenha sido um exímio lutador de competição; há registro de derrota em 1906 para o wrestler Andrew Newton. [12]


Após o fechamento do Bartitsu Club, em 1902

Não é claro o motivo do fechamento do clube de Barton-Wright; talvez tenha havido vários. Percy Longhurst, wrestler e jornalista, sugeriu que as taxas de matrícula e mensalidade eram altas demais. Em dezembro de 1901, membros do Bartitsu Club participaram de um grande evento no St. James's Hall que acabou em muita confusão e repercussão, pois os árbitros foram supostamente manipulados. Além disso, Barton-Wright e Yukio Tani, um dos instrutores mais importantes, brigaram e romperam o relacionamento abruptamente. Barton assim escreveu para Gunji Koizumi, que introduziu o Judo na Inglaterra:

“… Tani was troublesome in keeping appointments. I proposed to make deductions from his wages. One day he was in a furious temper over it and threatened me with violence. In the conflict which followed, Bartitsu proved superior to his Ju-Jitsu. That was the end of our connection.” [13]

É possível que Barton-Wright tenha falhado ao não conseguir impor disciplina e respeito no Bartitsu Club, criando um ambiente excessivamente competitivo e desgastante. O irmão de Tani, que também foi instrutor de Jujutsu no clube por pouco tempo em 1899, retornou ao Japão pois considerava que as exibições públicas e os prêmios em dinheiro eram um modo impróprio de divulgar a arte.

Aliás, cabe aqui uma comparação entre o modo como os europeus e os japoneses encaram as lutas. Richard Gordon Smith, um inglês contemporâneo de Barton-Wright, viu uma demonstração de artes marciais enquanto esteve no Japão e relatou em seu diário:

Perhaps one of the most notable things about the whole entertainment was the extraordinary silence. Not a sound of applause came at any time except from an agent of the P and O [steamship line], who, with the exception of myself, was the only foreigner present. Also most creditable was the absence of jealousy, personal feeling, one might also say, of rivalry, had the fights not been so real. Etiquette runs from the back of the heel to the tip of the sword, as it were. All personal feeling must be completely suppressed - not even a smile.... Jujitsu is hardly the thing for Englishmen - we are much too interested in finding the winner. [15]

Após o fechamento do clube, Barton dedicou seu gênio inventivo e empreendedor no desenvolvimento de equipamentos para tratamento médico, mas não obteve êxito. Suas máquinas, inovadoras e controversas, eram uma tentiva de explorar a luz, o calor e a radiação da eletricidade para aliviar dores e curar doenças. Sofreu graves problemas financeiros, em virtude de um longo processo jurídico movido por um ex-empregado e de seus investimentos malogrados em equipamentos terapêuticos. [3]


O legado de Barton-Wright

O “Baritsu” [sic] (escrito erroneamente por razões desconhecidas) foi citado em 1901 pelo escritor Arthur Conan Doyle, como sendo a arte marcial que Sherlock Holmes usou para derrotar um inimigo em uma de suas histórias. Esta passagem atiçou a curiosidade de alguns fãs e, se não fosse por ela, o Bartitsu teria ficado completamente às escuras durante o século XX.


É graças ao esforço de documentação de Barton, que se preocupava em ilustrar as técnicas, e à existência de matérias jornalísticas, que sua arte pôde ser recentemente resgatada. Como o clube foi fechado abruptamente e Barton-Wright tinha uma mente aberta, sempre à procura de melhorias, alguns praticantes atuais não se importam em incorporar novos conhecimentos, modificando o Bartitsu tal como catalogado pelo seu criador [16].



Encerrando com Graham Noble:

Unlike the Japanese, Barton-Wright was not tied exclusively to the traditions of jujutsu. He was not a Japanese budoka but an Edwardian Englishman with a practical frame of mind. In the February 1899 edition of Pearson's Magazine he wrote an article on how to duplicate the feats of certain stage "strongmen" (and women). As Barton-Wright explained, these were not true feats of strength but more tricks of leverage and body mechanics, something that might today be demonstrated before a gullible public as feats of ki. As befitted an engineer, he had a good understanding of body mechanics, and he saw an embodiment of such principles in jujutsu. But in the overall search for combat effectiveness, jujutsu needed to be augmented by other methods, notably boxing, as the early ancestor of all the modern "eclectic" stylists who bring together different forms to produce a new martial art. He was an interesting and important character and he deserves his niche in martial arts history. [7]



Referências:

[1] Wikipedia. Victorian era. <http://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_era>.
[2] Wikipedia. Social history of England. <http://en.wikipedia.org/wiki/Social_history_of_England>.
[3] Wikipedia. Edward William Barton-Wright. <http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_William_Barton-Wright>.
[4] Wikipedia. Bartitsu. <http://en.wikipedia.org/wiki/Bartitsu>.
[5] Wikipedia. Pierre Vigny. <http://en.wikipedia.org/wiki/Pierre_Vigny>.
[6] E. W. Barton-Wright. How a Man may Defend Himself against every Form of Attack. Originally published in Pearson's Magazine, March 1899. <http://ejmas.com/jmanly/articles/2002/jmanlyart_Barton-Wrighta_1202.htm>.
[7] Graham Noble. An Introduction to E. W. Barton-Wright (1860-1951) and the Ecletic Art if Bartitsu. <http://ejmas.com/jmanly/articles/2001/jmanlyart_noble_0301.htm>. Journal of Manly Arts. Mar 2001.
[8] Tony Wolf. The Origins of Bartitsu. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-origins-of-bartitsu/>. 15 Jan 2007.
[9] James. The Bartitsu Club, 1899-1902. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-bartitsu-club-1899-1902/>. 22 Aug 2008.
[10] Tony Wolf. The Bartitsu Legacy. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-bartitsu-legacy/>. 15 Feb 2007.
[11] Behnke (March 1901). The Musical Herald and Tonic Sol-fa Reporter.
[12] Palmer, K. (1988). "Japanese ju-jutsu comes to Britain: A glimpse back to a bygone era."Fighting Arts International, 47, 28-35.
[13] Koizumi, G. (1950, July). "Facts and History." Judo: The Budokwai Quarterly Bulletin, 17-19.
[14] Nugent, M. (1901, December). "Barton-Wright and his Japanese wrestlers." Health and Strength, 3(6), 336-341
[15] Manthorpe, V. (Ed.). (1986). The Japan Diaries of Richard Gordon Smith. London: Viking/Rainbird.
[16] Catherine Marien (2009). Bartitsu (Canonical Bartitsu, neo-Bartitsu). Website Full Contact Martial Arts. <http://www.fullcontactmartialarts.org/bartitsu.html>.
[17] E. W. Barton-Wright. Self-defense with a walking-stick: the different methods of defending oneself with a walking-stick or umbrella when attacked under unequal conditions. Pearson’s Magazine, 11 (Jan 1901), 35-44. <http://ejmas.com/jnc/jncart_barton-wright_0200.htm>, < http://ejmas.com/jnc/jncart_barton-wright_0400.htm>.

(Todos os links acessos em 21 jul 2011)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bartitsu: a arte eclética de Barton-Wright (parte I)

Uma resposta à violência urbana na Inglaterra do século XIX




Edward William Barton-Wright (1860-1951) nasceu em Bangalore, Índia; sua mãe era escocesa e seu pai, inglês, era engenheiro de ferrovias. Barton-Wright era um entusiasta das artes marciais; aprendeu boxe, savate, wrestling, esgrima e o manejo do stilleto, sempre tendo em vista a funcionalidade das técnicas.

A trabalho, esteve no Japão entre ca. 1893 e 1897, aproveitando a oportunidade para aprender judo e dois estilos de jujutsu. Trouxe esta aprendizagem à Inglaterra onde, fundindo-a com seus conhecimentos prévios, criou o Bartitsu (junção de seu nome com jitsu, uma mistura eclética de artes marcias destinada à defesa pessoal. Propagou seu estilo como “a arte cavalheiresca da autodefesa” (the gentlemanly art of self defense), uma forma de proteção contra as frequentes agressões de gângsters que aterrorizavam os habitantes das grandes cidades inglesas [8]. Como bom engenheiro, Barton-Wright parece não ter criado nada de estritamente novo. Seu mérito foi coletar e selecionar múltiplos conhecimentos marciais para dar uma solução que, além de eficiente contra a violência urbana, estivesse adaptada aos cidadãos ingleses das classes média e alta.

Em um artigo para uma revista, Barton-Wright escreveu:

(...) I have introduced a new style of self-defence, which can be very terrible in the hands of a quick and confident exponent. One of its greatest advantages is that the exponent need not necessarily be a strong man, or in training, or even a specially active man in order to paralyse a very formidable opponent, and it is equally applicable to a man who attacks you with a knife, or a stick, or against a boxer; in fact, it can be considered a class of self-defence designed to meet every possible kind of attack, whether armed or otherwise.
(...) The explanations which follow, with the assistance of the photographs reproduced, will show what a weak man with a knowledge of leverage and balance can do against a stronger man than himself who has not the same knowledge. (...)
You may say that it will be impossible to get the assailant into the positions shown, but it must be borne in mind that you are not seeking a quarrel or attacking, but simply defending yourself.
It is quite unnecessary to try and get your opponent into any particular position, as this system embraces every possible eventuality and your defence and counter-attack must be based entirely upon the actions of your opponent. The illustrations only show how to defend yourself against some of the more common forms of attack. [6]

Apesar dos esforços de catalogação do seu método, observa-se nas declarações acima que Barton reconhecia a necessidade de adaptação em situações reais.

Documentação das técnicas de autodefesa 
(colagem com fotos de [6] e [17])


Localizada em Londres, a academia fundada por Barton-Wright também foi inovadora ao permitir que mulheres aprendessem a sua arte de autodefesa, para o que foi necessário adaptar algumas técnicas. Àquela época, as mulheres inglesas das cidades começaram a reivindicar condições de igualdade entre os sexos; crescia a representação feminina nos esportes e iniciava-se a campanha das sufraggettes pelo direito ao voto. [10]

Colagem com fotos de [7], [8] e [10]


A sociedade inglesa na Era Vitoriana: o contexto do surgimento do Bartitsu

O reinado da Rainha Victoria, que durou de 1837 até a sua morte em 1901, marca a denominada Era Vitoriana do Reino Unido. Sob os efeitos da Revolução Industrial, a população da Inglaterra praticamente dobrou em 50 anos, saltando de 16,8 milhões em 1851 para 30,5 milhões em 1901. Apesar da prosperidade econômica, a industrialização gerou intenso deslocamento da população rural para as cidades, que passaram a crescer desordenamente com problemas de violência e saneamento básico. [1]

Os mais pobres se aglomeravam nos subúrbios em casas velhas e desconfortáveis. As classes média e alta começaram a conviver com elementos típicos de uma cidade: anúncios de publicidade (em grande parte destinados à venda de sabonetes), modismos e notícias sensacionalistas, que alardeavam o crescimento da violência urbana. Entre os modismos da época, estavam o interesse pela cultura oriental e a disseminação da cultura física (physical culture). Para as pessoas mais ricas, a Revolução Industrial trouxe o indesejado problema do sedentarismo, e foi neste contexto que as academias de ginástica ganharam popularidade. O ditado latim “mente sã em corpo são” virou o mote de muitas escolas para meninos. Era bem-visto que a educação moral e religiosa fosse vinculada à prática de exercícios físicos [8]. 

Ilustração de uma academia de ginástica da época [8]


Referências:

[1] Wikipedia. Victorian era. <http://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_era>.
[2] Wikipedia. Social history of England. <http://en.wikipedia.org/wiki/Social_history_of_England>.
[3] Wikipedia. Edward William Barton-Wright. <http://en.wikipedia.org/wiki/Edward_William_Barton-Wright>.
[4] Wikipedia. Bartitsu. <http://en.wikipedia.org/wiki/Bartitsu>.
[5] Wikipedia. Pierre Vigny. <http://en.wikipedia.org/wiki/Pierre_Vigny>.
[6] E. W. Barton-Wright. How a Man may Defend Himself against every Form of Attack. Originally published in Pearson's Magazine, March 1899. <http://ejmas.com/jmanly/articles/2002/jmanlyart_Barton-Wrighta_1202.htm>.
[7] Graham Noble. An Introduction to E. W. Barton-Wright (1860-1951) and the Ecletic Art if Bartitsu. <http://ejmas.com/jmanly/articles/2001/jmanlyart_noble_0301.htm>. Journal of Manly Arts. Mar 2001.
[8] Tony Wolf. The Origins of Bartitsu. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-origins-of-bartitsu/>. 15 Jan 2007.
[9] James. The Bartitsu Club, 1899-1902. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-bartitsu-club-1899-1902/>. 22 Aug 2008.
[10] Tony Wolf. The Bartitsu Legacy. <http://www.bartitsu.org/index.php/the-bartitsu-legacy/>. 15 Feb 2007.
[17] E. W. Barton-Wright. Self-defense with a walking-stick: the different methods of defending oneself with a walking-stick or umbrella when attacked under unequal conditions. Pearson’s Magazine, 11 (Jan 1901), 35-44. <http://ejmas.com/jnc/jncart_barton-wright_0200.htm>, < http://ejmas.com/jnc/jncart_barton-wright_0400.htm>.

(Todos os links acessos em 21 jul 2011)